segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Órtico

Amontoados os blocos
Engendram a cidade
Da janela caverna
Sem alma vista
Finda a apoteose

Em inerte candência
Padece o oblíquo sentido
Que transverte o ser

::: Ilderaldo Corrêa
(Janeiro, décimo segundo, 2009)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Um pouco de James Joyce

Postado originalmente em 3 de Janeiro de 2009
Editado em 9 de Janeiro de 2009

Após terminar de ler a obra Dublinenses, destaco algumas passagens que considero muito interessantes.


"Um fluxo de alegria ainda mais terna brotou-lhe do coração e expandiu-se numa cálida torrente em suas artérias. Como o brilho suave das estrelas, imagens de sua vida em comum, que ninguém conhecia nem jamais viria a conhecer, iluminaram-lhe a memória.

Gostaria de recordar-lhe esses momentos, fazê-la esquecer os anos insípidos da sua vida conjugal e lembrar apenas dos instantes de êxtase. Sentia que nem sua alma nem a dela tinham sido aniquiladas pelos anos. Os filhos, os livros, os trabalhos domésticos não haviam extinto a delicada chama de suas almas.

Numa carta que escrevera, ele dissera: "Por que razão as palavras me parecem tão tristes e frias? Será porque não existe palavra bastante suave para ser teu nome?"

Como longínqua música, essas frases que escrevera há muitos anos ressurgiam do passado. Queria estar a sós com ela. Quando todos tivessem ido embora, quando se encontrassem no quarto do hotel, ficariam então juntos e sós. Ele a chamaria docemente:

— Gretta!"

do conto "Os Mortos".



"Certos momentos, seu nome brotava-me dos lábios em estranhas preces e rogos que eu mesmo não compreendia.

Meus olhos enchiam-se de lágrimas (não saberia dizer a razão) e, às vezes, uma torrente parecia transbordar meu coração e inundar-me o peito. Pouco me preocupava o futuro.

Não sabia se falaria ou não com ela e, se o fizesse, de que modo revelaria minha tímida adoração. Meu corpo porém era uma harpa cujas cordas vibravam às suas palavras e gestos."

do conto "Arábia".



"Lembrou-se dos livros de poesia, guardados na estante, em sua casa. Comprara-os quando era solteiro e muitas noites, sentado na saleta junto ao vestíbulo, sentira-se tentado a retirar um deles da prateleira e ler alguns trechos para a esposa.

Mas a timidez sempre o impedira e os livros permaneciam em seus lugares. Repetia às vezes alguns versos para si mesmo e isso o consolava."

do conto "Uma pequena nuvem".


Os trechos acima citados foram extraídos do livro Dublinenses de James Joyce.

"James Augustine Aloysius Joyce (1882-1941) foi um escritor irlandês expatriado. É amplamente considerado um dos autores de maior relevância do século XX. Suas obras mais conhecidas são o volume de contos Dublinenses (1914) e os romances Retrato do Artista Quando Jovem (1916), Ulisses (1922) e Finnegans Wake (1939)" — Wikipédia

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Especiarias


Destapada, a cobiçada panela de porcelana, mais uma vez, borbulhava incansavelmente sobre o fogo; lado a lado em cima da mesa dentro de pequenos potes dispostos em ordem alfabética: hortelã, manjerona, noz moscada, páprica picante e salsa aguardavam com certa ansiedade pela imersão na água fervente.


No final da tarde a cozinha era o único lugar da casa onde ela conseguia se concentrar e esquecer um pouco da tolice dos colegas do escritório. Um dos imãs colados na geladeira, reprodução do quadro “Tounee Du Chat Noir” atraia sua atenção enquanto aguardava o tempo certo para o próximo movimento.

Um a um desapareciam os temperos nas espirais que se formavam ora para a esquerda ora no sentido oposto. O aroma desenhava um caminho invisível ao seu redor. Uma taça de vinho esquecida, apoiada na janela, refletia a ultima fração dos raios do sol que se perdiam na tentativa de atravessar os edifícios do outro lado da cidade.

Cuidadosamente fatiado, um terço do pão italiano (provido do armazém que freqüentara desde menina), era salpicado com um punhado de ervas finas e depois coberto com azeite de olivas.

Separados por delicadas mordidas, cada pequeno pedaço percorria sua boca estimulando seu desejo. O inseparável relógio de pulso regia as três pequenas chamas sobre o fogão, que após executarem uma incompreensível valsa, desapareceram no ar.

A espera pela degustação seria interminável se não fosse salva por algumas páginas de Lord Byron.

::: Ilderaldo Corrêa
(Janeiro, sexto, 2009)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

La Revancha Del Tango


Pouco antes de terminar o banho ela novamente encostou o rosto no vidro do box olhando fixamente para a toalha pendurada do outro lado, agora a água dedilhava parte de suas costas com a mesma tenacidade que Mozart tocava uma sinfonia.


Sem pensar em nada, como se fosse uma cientista olhando através de um microscópio, uma sutil mudança no foco do cristalino de seus olhos fez com que perdesse alguns segundos observando duas gotas traçarem caminho em direção ao chão.

A temperatura na rua beirava trinta e oito graus, invadia a sala, a cozinha, o corredor, o quarto ao lado, e vinte minutos antes ganhava as células da pele de seu corpo.

Em um movimento tão suave como o derreter de uma bola de sorvete, seus dedos enlaçaram o registro do chuveiro e vagarosamente enforcaram os últimos segundos do seu prazer.

Após tocar o tapete com a ponta dos pés instintivamente foi guiada até o espelho, com a palma das mãos apoiadas na pia observou seu rosto, seu cabelo molhado.

Sutilmente sua distração foi interrompida pelo tango moderninho que em baixo tom deliciosamente ainda tocava pelo apartamento, nua começou a dançar.

::: Ilderaldo Corrêa
(Janeiro, quinto, 2009)

domingo, 4 de janeiro de 2009

Cantigas de elevador


Durante três minutos ele observou o número “397” na porta a sua direita, primeiro os embaralhou, somou e depois subtraiu, enquanto os multiplicava a luz no painel do elevador a sua frente apagara e as duas imensas chapas de aço escovado deslizaram para o lado.


Segundos depois a claustrofobia dava inicio a sua tortura, não havia alternativa, descer mais de 20 lances de degraus com a perna engessada estava fora de cogitação.

Aquele caos parecia interminável, lentamente a pequena caixa de metal começou seu balé vertical; ao abrir os olhos os dígitos ainda marcavam, “31”, o carrasco aparentava entre sete e nove anos de idade, o pequeno e inocente sorriso da garotinha não era o suficiente para silenciar os insultos que disputavam lugar em sua mente.

Vinte e duas chibatadas ainda restavam para percorrer seu corpo, a tensão dominava sua boca, o ranger dos dentes, o suor na testa desenhava agonia em seu rosto.

Ao atingir o décimo sexto pavimento, outra parada, mais uma criatura infeliz dividiria o diminuto espaço entre ele e a pequena peste. Aquela maldita frase ecoou entre as paredes, por que haveria de ser um bom dia?

Inalado pelo pânico desejava cravar seus dedos entre as frestas de metal que o encaravam cinicamente.

Poucos metros depois, repetidamente o número onze cintilava em seus olhos, seu corpo desferiu apenas um movimento, um forte soco entre os botões, pressionando ao mesmo tempo diversas placas de plástico que reagiam com seus leds verde veneno, indefeso nos braços de uma máquina demoníaca, ao bater no segundo andar atropelou um casal que surgiu em sua frente, atordoado desapareceu pelo corredor, contornou um pilar e resolveu descer as escadas.

::: Ilderaldo Corrêa
(Janeiro, quarto, 2009)

sábado, 3 de janeiro de 2009

Die Walküre


Epílogo


Nuvens cruzavam sobre nossas cabeças como intermináveis drakars banhados pela luz vermelha alaranjada do sol, moviam-se lentamente em direção ao leste.

Próximo ao horizonte ainda era possível avistar escassas faixas de azul coral, pois o céu se escondera mais a cada segundo.

Poucos instantes separavam nossos destinos do inevitável, então um grito ecoou no ar "Elas estão vindo!"

Cada homem caído ao meu lado silenciou seu desespero, as Valquírias caminhavam entre nós derramando para alguns seu perdão, sua graça divina.

Não seria este o dia do fim de nossas vidas.

Drakar, navio de guerra viking
Valkíria, divindade da mitologia nórdica

::: Ilderaldo Corrêa
(Janeiro, terceiro, 2009)

domingo, 2 de setembro de 2007

O Cão


Corredor,

Logo lá está.
A drásticos longos passos
Quando o desencontro,
Já descansa.

Pertinente,
Consegue o desvio
Uma, duas,
Três vezes;
Desisto.

Incessante arauto
Sem uma gota de zelo
Arfa, Aspira
Cada pista sem eixo.

Ante a praça
Observa, Indaga.
Repentinamente,
Dispara.
Para o ar.
Para o nada.

::: Ilderaldo Corrêa
(Setembro, segundo, 2007)

Amor tangível


Esse amor tangível

Sentimento corpóreo
Infesta de forma exata
A insensata racionalidade.
Repleta transpira, transborda.
Encharcada grita, cerro os olhos.

Com as asas
que todos têm.
Na alma
que nem todos vêem.
Ergo vôo;
Parto.

De calor intenso
Violenta-me o faro.
Dela, seca a boca.
Esgota, dilacera...
O encorpado
Saboroso lábio.

Inflamado,
Explode!
Consome cada presente sonho.
Não há incômodo;
Ata-nos.

::: Ilderaldo Corrêa
(Agosto, vigésimo sétimo, 2007)

Almoço de negócios, não!


Enquanto espero que os faróis abram, observo o rosto das pessoas que cruzam a faixa de pedestres. Não sei se é o frio ou o fator de acordar cedo, mas não encontro ninguém sorrindo. Basicamente vejo caras amarradas, diferentes do meio-dia aonde, além do sorriso, vejo o riso e a descontração.


Afinal, nada como não ter de ficar em frente ao fogão e depois diante da pia encarando pratos, panelas e copos. Definitivamente adoro comer fora! O que é ainda mais prático do que o delivery, pois, você nem se dá ao trabalho de jogar as embalagens no lixo.

A pausa para o almoço é uma pequena dose diária de férias. Por isso digo... relaxe. Essa hora não foi criada para falar sobre negócios ou trabalho. Esses sessenta minutos devem ser dedicados a comentar sobre as notícias do dia anterior, os fatos da semana ou até a vida do próximo, mas, e o trabalho? Bem, esse continua lá te esperando.

Para o “workaholic” de plantão, fica o aviso: Tenha mais cuidado com o que você come do que com o que você diz! Li faz cerca de um ano (agora não me recordo onde) sobre a trágica experiência de um jovem funcionário que foi convidado para um almoço com a chefia. Na empolgação resolveu pedir lagosta. Sem habilidade necessária acabou dando um banho na mesa ao tentar quebrar aquelas patas.

Para as pessoas solitárias: fica um apelo! Parem de ocupar mesas para mais de duas pessoas! Agora um conselho: tomem outro rumo! Olhem ao redor! Aproximem-se de uma mesa para dois onde uma cadeira ainda esteja vaga e perguntem, posso me sentar aqui? Socializem-se! Tentem uma conversa inteligente ou engraçada, mas...comam antes que seu prato esfrie.

::: Ilderaldo Corrêa
(Agosto, décimo quinto, 2007)